DOCUMENTÁRIO DISCUTE RACISMO NO BRASIL COM EXPERIÊNCIAS DE INTERCAMBISTAS

Filme produzido por alunos da UFSC reflete sobre as percepções de estudantes belga e angolano

POR DANIEL BONFIM

“Ser negro é muito bom, mas eu não desejaria ser negro brasileiro, preferia que me tivessem matado na essência”, o depoimento do estudante intercambista angolano Abel Pedro do curso de Antropologia na UFSC foi registrado no mini-documentário “UAU – Percepções de um angolano e um belga em Florianópolis”. O filme explora as diferenças entre as experiências de Abel Pedro e Geoffroy Damant, estudante intercambista belga do curso de Agronomia na UFSC. Enquanto para o estudante branco e europeu Florianópolis é uma cidade amigável, receptiva e divertida, o estudante africano e negro tem na memória várias histórias de discriminação e racismo pra contar. Segundo o censo 2010 do IBGE, o estado de Santa Catarina tem 84% de brancos declarados, é o estado com maior proporção de brancos do país, seguido pelo Rio Grande do Sul e Paraná.

“UAU” foi desenvolvido pelos estudantes de Jornalismo da UFSC Renata Bassani, Felipe Figueira, Gabriela Damaceno e Clara Schnebel como trabalho final para uma disciplina da faculdade. O vídeo foi publicado no canal do youtube Correspondente Universitário, um outro projeto desenvolvido por Renata Bassani e Felipe Figueira quando eles mesmos foram fazer seus intercâmbios na Europa.  Na companhia de outros intercambistas de jornalismo eles produziram 45  vídeos sobre o choque cultural e as dificuldades que estudantes brasileiros encontram na Europa e América Latina ao sair de casa para o intercâmbio acadêmico. Renata Bassani conta que depois de viverem essas experiências fora do país eles perceberam que seria legal explorar também o choque cultural inverso, ou seja, dos estudantes estrangeiros que vem para o Brasil. Dessa reflexão e algumas discussões em sala de aula surgiu o questionamento: será que existe diferença entre ser um intercambista branco e europeu e um intercambista negro e africano em Florianópolis? “UAU” é a resposta. Renata Bassani conta que “a repercussão foi muito além” do que eles esperavam: completando apenas três meses desde sua publicação, o filme já está com cerca de 40 mil visualizações e um debate acalorado com mais de 160 comentários.

 

Para a haitiana Nahomie Laurore, estudante intercambista negra do curso de Jornalismo na UFSC, o mini-documentario é apenas reflexo do que acontece todos os dias na sociedade brasileira: “A minha impressão é que a xenofobia e o racismo é direcionada principalmente aos negros e pessoas vindas de países pobres”. As duas variáveis que causam o preconceito (cor da pele e condição social) constadas  por Nahomie Laurore podem ser observadas também em uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre desigualdade racial no Brasil, que indica que pessoas negras representam a maioria da população pobre no país: negros são 63,63% do total da população pobre, enquanto os brancos são 35,95%. “Quem cresceu em um país (se referindo ao Haiti) onde o ser-humano não é desvalorizado pela cor de pele vai ter dificuldade de lidar com o racismo no Brasil”, observa.

O Grupo Negro 4P – Poder para o Povo Preto, coletivo anti-racista auto-organizado por alunos de diversos cursos da UFSC, enxergou o documentário de maneira positiva e didática, principalmente para o público branco que muitas vezes não conseguem enxergar as dificuldades encontradas por negros em relações interpessoais. Em nome do coletivo, o estudante de Direito da UFSC, Guilherme Filipe Andrade dos Santos  disse que mesmo assim algumas coisas no mini-documentário incomodaram: “Por exemplo, a forma como foi retratada a vida dos dois. O Belga teve toda a sua rotina retratada, a vida dele foi mostrada de uma forma bem estabelecida. Enquanto o angolano foi retratado apenas dentro da universidade e com a utilização de trilha-sonoras tristes. A coisa (sic) ficou dicotomizado demais”.  O coletivo acredita que se o mini-documentário tivesse focado mais no cotidiano do angolano teríamos mais exemplos do racismo que ele sofre “na prática”.

Daniel Bonfim

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